É preciso estar atento e forte...

“É preciso estar atento e forte,
Não temos tempo de temer a morte...” 
Caetano Veloso

Os nossos direitos seguem ameaçados. No entanto, com as mobilizações de rua e os novos acontecimentos, como a delação da JBS e a pressão sobre Temer, o povo está aprendendo sobre o funcionamento dos lobbies das grandes empresas nacionais e internacionais no Congresso Nacional e também nos tribunais. Por isso, precisamos permanecer atentos e fortes, pois as horas e horas de notícias negativas nos principais meios de comunicação estão revelando a trama, mas também podem deixar uma parte da população ainda mais descrente e perplexa.
O fato é que, com o fim do pacto político, representado pelo processo de impeachment da presidenta Dilma, deu início a uma guerra contra os movimentos sociais e, principalmente, contra o PT e o ex-presidente Lula. O país entrou numa fase de intensas batalhas econômicas, políticas, jurídicas, psíquicas e culturais, de abrangência nacional e internacional. Milhares de empregos foram perdidos, o Congresso ficou nu aos olhos do povo, os juízes e procuradores se destacaram na cena política, aumentou a venda de Rivotril e as baixarias invadiram as redes sociais etc., etc., etc. As redes de televisão, rádios, jornais e algumas revistas semanais, a mando dos seus patrocinadores, não pouparam esforços para atacar quem denunciava o golpe, pois queriam defender e ampliar ainda mais os seus privilégios.
A grande mídia foi cooptada pelo bloco golpista à base de muito dinheiro público. E, mesmo assim, na adversidade, surgiram diversos movimentos sociais que ocuparam escolas, praças, esquinas e, depois, as ruas, com ou sem o apoio dos partidos, para defender os interesses dos trabalhadores e das camadas exploradas e excluídas da sociedade.
Esse período de resistências jamais pode ser esquecido por quem ainda não perdeu a capacidade de sonhar. Vejam que em 2017 os ventos favoráveis à resistência popular sopraram muito mais fortes do que no ano anterior: no dia 8 de março, por exemplo, as mulheres e os homens do mundo inteiro fizeram grandes manifestações contra o preconceito e a exploração das mulheres. No dia 15 de março, ocorreram atos no interior do país e nas capitais contra a perda de direitos. E no dia 28 de abril, os movimentos sociais, as centrais sindicais e indivíduos de vários matizes ideológicos e partidários realizaram a maior Greve Geral da história do país, dando uma clara demonstração de unidade em torno das pautas contra o desmonte da previdência pública e em defesa da CLT. Depois ainda houve o dia 10 de maio em que o Partido dos Trabalhadores, o MST, o MTST e a CUT demonstraram uma imensa capacidade de unidade e mobilização, quando militantes vindos das mais distantes regiões do país ocuparam a cidade de Curitiba para dar apoio à maior liderança popular que o Brasil já teve: o Lula.
Ainda em maio, tivemos aquela grande manifestação em Brasília, e no dia 28 um grande ato-show por Eleições Diretas Já!, com a participação de Caetano Veloso, Wagner Moura, Criolo,  Martinália, Maria Gadú, Teresa Cristina, Mano Brown, BNegão, Daniel de Oliveira, Sophie Charlotte e Milton Nascimento.
O filósofo Antonio Gramsci diria que nós estamos entrando numa nova fase da guerra de movimento e da guerra de posição. E o poeta Paulo Leminski completaria dizendo que: “En la lucha de clases todas las armas son buenas,  piedras,  noches,  poemas...” Por isso, e também por isso, não podemos cair na tentação de uma guerra puramente ofensiva, sem recuos, reflexões e celebrações nas cidades brasileiras.
Vejam que as forças conservadoras recuaram e só se ouve falar nelas no Governo (que tem 95% de desaprovação), no Congresso (que está totalmente desacreditado), nas redes sociais (ninguém duvida que sejam robôs e/ou pessoas contratadas) e em alguns meios de comunicação, como a Rede Globo, a Band, o SBT, a Veja e as rádios regionais. Fora isso, parece que os(as) patos(as) dispersaram ou "amarelaram" de vez!
Já se ouve falar até em divisões entre o Ministério Público, o STF e a Lava-Jato, e também entre o Senado e a Câmara dos Deputados. O fantasma do Teori Zavaski paira sobre Brasília, enquanto aumenta a força nas ruas, nas fábricas, nas escolas, nas universidades, nas igrejas e nas famílias brasileiras.
Por seu lado, Temer e Aécio, pegos recentemente – com provas - no mega esquema da JBS, estão em situação muito complicada. No entanto, mesmo com toda essa divisão do bloco golpista, Temer bate na mesa e afirma que não irá renunciar. Vejam que, diferentemente da Dilma, ele enfrentou os protestos em Brasília com a cavalaria, baionetas, gás lacrimogênio, balas de borracha e até com balas letais. A Rede Globo, junto com os lobbies, segue forçando as negociações “pelo alto” até tirá-lo do cargo e providenciar um sucessor que seja capaz de aprovar as reformas anti-povo e estancar a Operação Lava-Jato. Dizem que Aécio bebe, articula e chora desesperadamente, pois ele sabe que pode “ser comido”, como foi o Eduardo Cunha.
Mas se engana quem pensa que esta guerra será apenas "uma marolinha"! Recém estamos entrando na fase mais delicada e extrema da nova luta de classes, em defesa dos direitos do povo. É hora de escolher as melhores armas! As redes sociais, os blogs, o diálogo franco e o amplo esclarecimento sobre o que está em jogo fazem parte das nossas principais tarefas de mobilização e organização para os próximos atos-shows e manifestações.
Precisamos aprender a respeitar o tempo das pessoas e das organizações. A sabedoria está em adaptar os nossos desejos às atividades que existem no mundo real, e permanecermos dispostos(as) a acumular mais forças para prosseguir em frente. Se o futuro ainda é incerto, a paciência e a perseverança revelarão quem está junto conosco nos momentos decisivos.
Ainda não sabemos se Temer renunciará antes do julgamento da ação movida contra a chapa Dilma-Temer pelo STF. Cada semana será uma batalha diferente, e qualquer das alternativas também pode significar uma jogada do PSDB, do PMDB e do DEM e seus lobistas para evitar eleições diretas e aprovar as medidas impopulares. Neste momento da disputa, a grande maioria dos deputados e senadores dos partidos de esquerda está atenta e forte, mas ainda existem alguns vacilantes, principalmente os do chamado “Centrão”, pois eles sabem que jamais serão perdoados se votarem por eleições indiretas.
A hora é de união e não de divisão! Não podemos alimentar criticas às cores da bandeira que uma agremiação resolveu levar para as ruas. Uma, porque a luta atual não passa exclusivamente pelos partidos políticos. Outra, porque a Greve Geral do dia 28 de abril nos apontou o melhor caminho: as pautas defendidas mobilizaram e unificaram diversos setores da população. Além disso, ela tocou na parte mais sensível dos golpistas – o capital – e apontou para a possibilidade de formação de uma ampla frente política no Brasil, para além dos partidos.
– Ah, mas o Lula devia ter combatido a Globo quando ele teve a oportunidade e não o fez - reclama um. O outro desabafa: – As políticas do governo Dilma estavam equivocadas! E ainda tem aquela outra que defende: – A Lava-Jato é a solução para acabar com a corrupção no Brasil! Essas pessoas preferem morrer com a razão a escutar as ruas e a somar mais e mais esforços... Digam para elas que se perdermos as ruas, não há dúvidas de que virá uma nova ofensiva da Rede Globo e dos seus conhecidos aliados.
É hora das esquerdas se unificarem em torno de um projeto para o país, que inclua as pautas da previdência pública e da CLT, além da reforma política, dos juros e do Pré-Sal, entre outras. Mas também já está mais do que na hora de elas preservarem as lideranças que não cometeram crimes e de defender um julgamento justo para todos os suspeitos. As novas e antigas lideranças precisam mostrar maturidade política e contribuir nessas complexas tarefas.
Nesta nova fase da guerra de movimento e de posição, é preciso construir juntos e também celebrar os avanços obtidos. Percebam que os gritos de #ForaTemer”, #DiretasJá e #EmDefesaDosNossosDireitos já não estão restritos aos tradicionais grupos da esquerda brasileira. E isso é muito bom para o campo democrático e popular avançar ainda mais!

Por que não dão mais golpes como antigamente?



Eles estão jogando o jogo deles.
Eles estão jogando de não jogar um jogo.
Se eu lhes mostrar que os vejo tal qual eles estão, quebrarei as regras do seu jogo
e receberei a sua punição.
O que eu devo, pois, é jogar o jogo deles,
o jogo de não ver o jogo que eles jogam.
Citado em Laços, de R. D. Laing.

Essa citação do livro Laços, de R.D. Laing revela o alto grau de esquizofrenia ou de sabedoria de uma pessoa? Pergunto isso porque muitas ainda se questionam sobre as diferenças entre os golpes de 1964 e de 2016. Vejo que as rebeldes e de índole libertária sentem medo de uma punição maior, pois pensam em golpes como uma intervenção militar, mas algumas já estão compreendendo o que significa um “golpe branco”, a exemplo do que ocorreu no Paraguai e em Honduras, só para citar dois países próximos a nós, brasileiros. Portanto, a pergunta que faço no título é mais do que pertinente.
Nesta reflexão, parto do princípio de que “golpes” civis e militares vêm ocorrendo há muito tempo no Brasil e que a cultura do autoritarismo faz parte da vida e da memória do nosso povo. É certo que algumas pessoas reagem para defender apenas os seus interesses econômicos e privados, enquanto outras agem por pura maldade e estupidez... Mas também existem aquelas que simplesmente “entram na onda” da grande mídia e, pela falta de um conhecimento mais elaborado, se tornam massa de manobra. Essas não podem ser tratadas e comparadas com as duas primeiras, sob pena de confundi-las ainda mais.
Poderíamos dizer que os golpes civis e militares no Brasil (e no continente sul-americano) são uma consequência da expansão do capital internacional e da ausência de uma burguesia nacionalista no país com capacidade de resistir. Grosso modo, eles ocorreram em quatro momentos distintos e complementares: a primeira fase vocês conhecem, pois ocorreu no tempo do Império e foi citada em todos os livros escolares. A segunda fase vai da Proclamação da República até 1964, com fortes investimentos em mineração e acordos com a burguesia emergente nacional, predominantemente rural e conservadora. A terceira fase vai de 1964 até o final do século 20, com o golpe militar, que patrocinou o chamado “Milagre Econômico” com aparência nacionalista, mas que se abriu para a instalação vertiginosa de indústrias transnacionais em solo brasileiro, com investimentos em infraestrutura (estradas, pontes e hidrelétricas), com o objetivo transportar a produção do campo e das cidades, além de gerar energia para os novos parques industriais e exportar a produção. A quarta fase começa bem antes de 2016, com a expansão do capital financeiro internacional, em que os grandes bancos se alimentam de receitas produzidas por outros setores da economia mundial e concentram ainda mais a riqueza, criando mais desigualdades e privilégios em cada país. No caso brasileiro, alguns bancos internacionais se aliaram à grande indústria e à agroindústria, ambas dependentes, com o objetivo de investir na produção local por um longo período. O país atravessou esse período com estabilização e consumo, mas quando a crise econômica chegou, veio um “golpe branco” com o objetivo de “desburocratizar” os procedimentos alfandegários, “flexibilizar” as leis do trabalho, com a perda de direitos consolidados e/ou adquiridos pelos trabalhadores na Constituição de 1988 e o “desmonte” da previdência social pública, para tornar os brasileiros reféns dos planos de saúde, dos bancos, das empresas e das oscilações do mercado internacional.
Para quem ainda não sabe, nos primeiros cem anos de República, vivemos apenas 19 anos em ambiente democrático, sendo que esses dezenove anos não foram contínuos, mas interrompidos por golpes civis e militares. Nesse sentido, quem nasceu bem antes de 1989 – primeira eleição direta após o regime militar – deve valorizar e dar outro significado para essa recente experiência democrática de vinte e sete anos consecutivos. Nessas quase três décadas os movimentos populares cresceram e se organizaram muito mais do que nas décadas anteriores, mas, ao mesmo tempo, foram criminalizados. Mais tarde, obtiveram diversos avanços reais, principalmente durante os governos – de coalizão – Lula e Dilma... Mas a “doutrina da prosperidade” também estava sendo disseminada por algumas igrejas e seus fanáticos pastores, e houve a eleição de diversos vereadores, prefeitos, deputados estaduais e federais, senadores ligados ao agronegócio e à repressão, formando as chamadas bancadas “da Bíblia”, “do boi” e “da bala”. Os demais poderes da República, como os tribunais e os meios de comunicação nacionais e regionais, foram dominados por “celebridades”, por volumosos “patrocínios” e por intrigas e difamações sem o devido direito de resposta.
Compreender isso é fundamental para reconhecer porque as velhas culturas políticas ainda se manifestam entre nós, qual é o papel geopolítico que o Brasil cumpre para garantir o equilíbrio (ou desiquilíbrio) do continente, e a importância dos avanços culturais, sociais, econômicos e políticos que obtivemos. Boa parte do povo brasileiro sabe que em 1964 um grupo de militares, apoiados por civis, deu um golpe de Estado e governou arbitrariamente por longos 21 anos, pois até a Rede Globo (que, não por coincidência, foi inaugurada em 1964) e o governo norte-americano já reconheceram isso publicamente. Mas poucos sabem que esses mesmos civis e militares brasileiros, a serviço do capital internacional, exportaram os golpes militares e os métodos de tortura utilizados aqui (a partir de 1964) para outros países da América do Sul, como o Uruguai (1973), o Chile (1973) e a Argentina (1976). E, quase ninguém relaciona o fato de que naquela época o mundo vivia um período de expansionismo políticos / econômicos / territoriais estratégicos, conhecido como Guerra Fria, em que era quase impossível se livrar da disputa bipolar promovida pelas duas grandes potências mundiais, Estados Unidos da América e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
A nossa televisão e os cinemas, por exemplo, foram dominados pela cultura importada dos Estados Unidos, as escolas e universidades foram fragmentadas e censuradas por meio do famigerado acordo MEC USAID (United States Agency for International Development), ouve uma tecnificação do ensino, censura aberta às obras musicais, às peças de teatro, aos filmes nacionais e estrangeiros. Ao mesmo tempo, muitos militares e policiais foram treinados para a perseguição política, a truculência, a prática do racismo e a obtenção de provas por meio da tortura. Para presos comuns, esses métodos medievais nunca acabaram no Brasil, mas o juiz Sérgio Moro voltou a utilizá-los para prisões políticas, por meio da tortura psicológica.
É bom lembrar que essas disputas bipolares e globais continuaram até 1991 e foram se definhando há pouco mais de duas décadas, com a dissolução da União Soviética, a partir da Perestroika e da Glasnost (1986) e com a queda do Muro de Berlim (1988).  Quem tem mais de vinte e cinco anos de idade deve saber que o muro desabou junto com muitos paradigmas – modelos - que orientavam boa parte da esquerda mundial e que o surgimento de novos pactos regionais (União Europeia, Mercosul etc.) inseriu os países numa nova ordem mundial, caracterizada por grandes blocos econômicos, só que agora multipolarizada. Além dos Estados Unidos da América e do Japão, a China se destacava como uma das potências competitivas, enquanto a Rússia ainda se levantava dos escombros.
O que pouca gente se deu conta (ou faz de conta que não viu) é que durante esse longo processo de disputas territoriais, diversas empresas estrangeiras se instalaram em solo brasileiro, assim como em toda a América do Sul, da África e de parte da Ásia. E que a nova política estratégica das grandes potências mundiais, reunidas no G-8 e no G-20, passou a ser a defesa de uma democracia controlada, com a repressão dos conflitos nesses territórios ocupados. No entanto, contraditoriamente, em alguns países ocorreram diversos movimentos sociais e de massas que fizeram um enfrentamento direto e indireto às políticas das grandes corporações.
Aquilo que essas empresas conquistaram durante séculos de exploração do continente foi consolidado, principalmente, durante esses anos de Guerra Fria (1945 a 1991) e de ditadura militar no Brasil e nas Américas. No entanto, foi a partir dos governos militares que as grandes mineradoras, as usinas hidrelétricas, os parques industriais, a produção de soja e de carne cresceram no Brasil, mas para abastecer o mercado internacional, e não para melhorar a vida do povo. Não é por acaso que os slogans do regime militar eram: “Exportar é o que importa!” e “Primeiro é preciso crescer, para depois dividir o bolo”. Um plano de enganação orquestrado pela grande mídia em conjunto com a velha / nova elite nacional dependente, submissa ao capital internacional.
É certo que desde o Brasil Colônia nós exportamos madeira, ouro, borracha, castanha, carne e cereais, principalmente para a Europa e os EUA. É importante lembrar que a indústria foi uma das maiores conquistas do Brasil no Século 20 e que ela ocorreu, dentre outras questões, porque Getúlio Vargas tinha uma visão de estadista. Mas precisamos reconhecer que foi a partir dos anos 1970 que se inaugurou o período de internacionalização intensa do capital, da exportação de automóveis, televisores, iogurte, sabonetes, lâminas de barbear, papel higiênico, bebidas etc. para outras partes do mundo. Na década de 1970, por exemplo, a FIAT se instalou em Betim, Minas Gerais, o Polo Petroquímico do ABC Paulista cresceu significativamente e o Super Porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, foi ampliado e se tornou um dos maiores portos do país.
A crise do petróleo, em 1973, acabou com o “Milagre Econômico” e o país já havia se endividado com o FMI e com outros bancos externos. O preço dos alimentos se elevou e desgastou de vez o regime militar, que também era denunciado por torturas e corrupções. A partir de 1975 começaram a pipocar greves de trabalhadores no ABC paulista e em outros estados, os movimentos sociais se unificaram e fortaleceram a resistência democrática em todo o país. Os candidatos de oposição – ainda aglutinados no Movimento Democrático Brasileiro, pois esse era o único partido legal e oposicionista à época - foram eleitos na maioria dos municípios, estados e no Congresso Nacional.  As manobras dos militares e de seus patrocinadores foram muitas e, inclusive, fizeram parte do “plano de abertura lenta e gradual” elaborado pelo então General Golbery do Couto e Silva. Aos poucos, com o surgimento de novos partidos e o avanço das oposições, aqueles velhos slogans foram substituídos pela “necessidade de um Estado mínimo” e pela “ineficiência do Estado” e tudo isso que vocês ouvem ainda hoje nos programas de rádio e de televisão. Vieram os governos civis, e a venda do patrimônio público a preço de banana para empresas nacionais e, principalmente, multinacionais se tornaram as principais marcas dos governos Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique Cardoso, representantes dos governos do PMDB, do PSDB, do PFL (atual DEM), do PDS (atual PP), e de outros partidos menores, tanto nos estados como nos municípios.
É importante destacar que, nessa transição do regime autoritário para um ambiente democrático, ainda durante o governo Sarney, os salários foram congelados e tiveram reajuste apenas quando a inflação atingisse 20%, e os supermercados escondiam as mercadorias para aplicarem um ágio sobre os produtos. Os planos milagrosos, Cruzado I e Cruzado II (fevereiro e novembro de 1986, respectivamente), fracassaram, pois a inflação oficial medida pelo IBGE alcançou a absurda cifra de 1.764% e houve um aumento excessivo dos preços. Como a elite empresarial não tinha uma alternativa midiática capaz de vencer Lula nas eleições de 1989 acabou transformando o governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello, conhecido como o Caçador de Marajás, no seu candidato. O desafio deles era derrotar o PT nem que fosse necessário mentir e manipular de forma escancarada. Depois, o principal executivo da Rede Globo de Televisão, o Boni, reconheceu tal manipulação, mas já era tarde: Collor havia vencido as eleições de 1989.
A prioridade anunciada pelo novo governo foi lutar contra a espiral inflacionária. Collor confiscou a poupança dos brasileiros e abriu o país para o capital internacional. Como todos sabem, o novo “Salvador da Pátria” teve o seu mandato cassado por um impeachment, em 1992, com milhares de jovens indo às ruas com as “caras pintadas”, após a Rede Globo noticiar os crimes e assassinatos praticados pelos seus antigos aliados.
Hoje é totalmente diferente, pois o planeta inteiro já reconheceu o protagonismo do Brasil neste século 21, e apenas o capital financeiro internacional e seus aliados não se importam com o bem-estar dos brasileiros. A soberania nacional só existe em algumas peças publicitárias do governo golpista, na cabeça de alguns malucos que vestem camisas amarelas nas manifestações e na de alguns velhos idealistas. É lamentável que a maior parte da esquerda brasileira nem fala nesse assunto e, inclusive, trata o debate sobre a internacionalização do capital como se fosse uma “mania de conspiração” ou “uma paranoia”. Ou seja: ainda não entenderam que o capital não tem fronteiras, que a luta de classes é internacional e que a liberdade não se conquista em um só país.

Há muito tempo que os investimentos norte-americanos são significativos no Brasil. Mas, com o golpe de 2016, as bancadas do PMDB, do PP, do DEM e do PSDB estão preparando o terreno para ampliar essa participação. Uma das primeiras medidas do governo golpista foi a aprovação do fim da participação obrigatória da Petrobras no Pré-Sal. O ministro da Fazenda anuncia que o governo vai liberar a venda de terras para estrangeiros, o ministro do desenvolvimento, indústria e comércio, paulista e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, está implementando um plano de “desburocratização dos serviços públicos”, com o objetivo de diminuir os controles feitos pelo Imetro, para agilizar os procedimentos de marcas e patentes e preparar a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) para ampliar a sua capacidade de exportação. Vê-se que a pauta dos golpistas está sendo intensa em 2017, pois eles precisam obedecer as ordens do capital internacional e entregar as riquezas do país o mais rápido possível.

O problema deles é que acabou a Guerra Fria e hoje o mundo é multipolar. Além disso, estão previstas eleições em 2018 no Brasil, e eles ainda não possuem candidatos confiáveis, com a “ficha-limpa” e com a capacidade de derrotar o ex-presidente Lula, que ainda é lembrado pelo povo como o único grande líder nacional. No entanto, povo brasileiro ainda precisa entender que em momentos de crise cíclicas do capitalismo mundial essas disputas políticas sempre se agudizam e se radicalizam. Em qualquer país do mundo, incluindo o Uruguai, a Bolívia, a Venezuela, a Alemanha, a Inglaterra, a China, o Tibete e (pasmem) os EUA, a pauta da intromissão estrangeira na economia e na política é debatida abertamente, sem medo de pechas e de adjetivações, pois é preciso defender os empregos e o futuro que está ameaçado. No Brasil, a disputa política tem se dado somente no campo jurídico, ético, moral, religioso e psíquico. Não considero essas questões menos importantes, mas elas não podem ser tratadas como exclusivas ou excludentes. Seria uma orquestração dos exportadores? Ou será a síndrome de vira-lata que persiste entre nós?

O simbolismo de identificarmos um inimigo externo não pode ser descartado pela política de resistência democrática, pois ele, além de ser verdadeiro, contribui para a unificação dos movimentos sociais. As mobilizações de 2017, em defesa da Previdência Social Pública, por exemplo, também mostraram que elas unificam o povo brasileiro contra os golpistas. Mas ainda falta muito para unificar os diferentes coletivos e partidos contra a terceirização do trabalho, a defesa do Pré-Sal (leia-se, mais recursos para a saúde e educação) e a priorização de por mais comida na mesa do trabalhador. Enfim, a oposição brasileira precisa ser clara para se diferenciar dos insurgentes grupos de aventureiros e de carbonários. Os coletivos precisam criar focos de resistência e de luta contra a perda de direitos em cada um dos estados, e no máximo de municípios brasileiros. 
Como se viu, foi e será um longo período de movimentos e de posições no seio dos poderes e da sociedade brasileira, sendo que os dois exemplos mais recentes foram a descoberta do Pré-Sal (energia + saúde + educação) e o alinhamento do Brasil com os BRICs. Enquanto um aguçou a ganância de empresas chinesas, francesas e norte-americanas, o outro tirou boa parte do protagonismo dos EUA na definição das políticas globais, como a taxa de juros bancários, os empréstimos e investimentos em países subdesenvolvidos etc. A partir daí, entramos num jogo de xadrez nacional e internacional, com vigilância permanente nas redes sociais, com espionagem e escutas ilegais, vazamento de informações, que os mais velhos, infelizmente, ainda não conseguiram entender a dimensão dessa guerra cibernética. No entanto, com erros e acertos, me parece que estamos sendo provocados a compreender a realidade a partir da própria realidade objetiva / subjetiva, e não apenas a partir da disputa entre as siglas e/ou dos estudos acadêmicos.
Vamos torcer para que as novas gerações nos questionem sobre alguns temas, tais como: 1) quais são as grandes corporações que estão disputando a hegemonia cultural e política no parlamento, nos tribunais, nas redes sociais e nos meios de comunicação? 2) Elas temem perder os parques industriais instalados em solo brasileiro durante os anos de regime militar? 3) o empresariado nacional é nacionalista ou se tornou totalmente dependente? 4) O jogo “Um desmonte para o Futuro” está servindo para punir um a um, os políticos e empresários brasileiros delatados e/ou envolvidos em “tenebrosas transações”? 5) A Operação Lava-Jato está punindo os corruptos ou apenas serve para evitar que o povo brasileiro faça uma reflexão mais profunda? 6) O alinhamento estratégico do Brasil com os BRICS e com o Mercosul está ameaçado? 7) Qual é o propósito maior do golpe de 2016?
É óbvio que, se mostrarmos que estamos vendo tal qual eles jogam, quebraremos as regras do seu jogo e receberemos uma, duas ou mais advertências e punições... O que devemos fazer? Jogar o jogo deles, e seguir fazendo de conta que não vemos o jogo que os bancos jogam, junto com as empresas norte-americanas, chinesas, francesas, canadenses etc.? Perguntem aos coletivos o que devemos fazer e quais são as peças que compõem os tabuleiros municipal, regional, estadual, nacional e internacional. Você está preparado para jogar esse jogo?

P.S. Nos anos 70 Henry Kissinger, conselheiro de relações exteriores de vários presidentes dos EUA, já sugeria para o G7 (depois G8) essa mudança de tática na dominação dos países dependentes, após a instalação dos parques industriais transnacionais em solo estrangeiro. Anos antes, o General Golbery do Couto e Silva, um dos grandes mentores da estratégia do regime militar, presidia a empresa norte-americana Dow Chemical do Brasil, uma das maiores fabricantes de produtos químicos agrícolas do mundo. Por curiosidade, fiquei sabendo que recentemente, em 2015, a Dow Chemical se uniu a Du Pont, segundo seus diretores, “devido à queda nos preços das commodities e o dólar forte, mesmo com seus negócios de plásticos prosperando graças aos preços baixos do gás natural”. Para um(a) leitor(a) atento(a), essas palavras bastam!
Março de 2017 (53 anos do Golpe de 1964 e 27 anos da primeira eleição direta após o regime militar).

Memórias do Movimento Estudantil - Anos 1970 e 1980.

Depoimento para o projeto Memória do Movimento Estudantil Universitário Gaúcho no período da redemocratização 1977 - 1985, criado e desenvolvido pelo IMA - Instituto Mário Alves, de Pelotas. Acredito que estas reflexões contribuem para entender algumas contradições da esquerda que ainda persistem neste novo período da história brasileira. Lamento, mas eu errei o nome da minha organização à nível nacional: era Caminhando e não Movimento. Aqui no RS era Resistência e a minha desmemória não me traiu :) Espero que vocês gostem... Abraços.

Um selfie com Mujica





“Não é só uma mudança do sistema, é uma mudança de cultura, é uma cultura civilizatória. E não tem como sonhar com um mundo melhor se não gastar a vida lutando por ele. Temos que superar o individualismo e criar consciência coletiva para transformar a sociedade.” – José Pepe Mujica

Quantas pessoas você conhece que admiram o ex-presidente Mujica? E agora, me responda: quantas dessas pessoas defenderiam as ideias de Mujica? Não estou me referindo à sua situação social e nem às escolhas de vida que José Pepe Mujica fez após passar 12 anos nas prisões uruguaias. Neste momento de crise ética e política, precisamos refletir sobre a sua dignidade e também sobre o exemplo que ele vem dando para todos nós ao falar de princípios e de valores não monetários. 

Poucas pessoas sabem que Mujica gosta de ler Sêneca (50 A.C) e diversos livres pensadores do passado e do presente, e pouquíssimas se dão conta de que ele também é fruto de um longo processo histórico vivido pelo seu país, o Uruguai. Por exemplo, lá as universidades foram criadas muitas décadas antes do que as brasileiras; há quase cem anos, na Constituição de 1917, o Estado foi separado da influência da Igreja; o presidente colorado José Batlle y Ordóñez incentivou um verdadeiro laicismo radical no país e, desde lá não se vê símbolos cristãos nas câmaras de “ediles” (vereadores), nas salas de aula, nos tribunais e nem nos hospitais da rede pública. Todas as religiões são respeitadas e, na posse dos presidentes o juramento é em nome da Constituição uruguaia e não da Bíblia. Isso, por si só, já revela a seriedade e a radicalidade da democracia republicana construída pelos hermanos.

Mas tem mais: os uruguaios aboliram a escravidão quarenta e seis anos antes do que o Brasil; o país foi o pioneiro ao permitir o divórcio por iniciativa da mulher em 1913 enquanto que a lei brasileira foi aprovada apenas no final dos anos 70 (cinquenta e sete anos depois); as mulheres uruguaias conquistaram o direito ao voto em 1917 e as brasileiras somente em 1932 (quinze anos depois). Recentemente eles conseguiram avançar ainda mais nos seus direitos civis, com a legalização da relação entre pessoas do mesmo sexo, com a não punição à prática do aborto até a 12ª semana de gestação e se tornaram o primeiro país no mundo a comercializar a marijuana pelo próprio Estado, como política de saúde e de combate ao tráfico de drogas. Nós, brasileiros, em pleno século 21, ainda estamos enfrentando o conservadorismo político e religioso que invadiu o parlamento, as prefeituras, as delegacias de polícia, milhares de residências e milhões de mentes desesperadas e solitárias.

Do ponto de vista do sistema político, os partidos uruguaios são seculares e o Frente Amplio, fruto da coalizão de várias organizações e de cidadãos independentes, reúne democraticamente toda a esquerda uruguaia desde 1971 e governa aquele país desde 2005. Essa maturidade política do seu povo dificulta as manobras espúrias e o surgimento de uma bancada que imponha as "leis divinas” e/ou defenda o monopólio da comunicação. José Pepe Mujica e quase toda a torcida do Penharol e do Nacional sabem disso!

Portanto, um selfie com Mujica deveria levar em conta que além de admirá-lo (o que não está errado!) todo fã precisaria compreender o que ele e o seu povo representam. Os brasileiros, por exemplo, deveriam valorizar os postos Petrobrás e evitar as multinacionais Esso, Shell e Texas Co. Ao comprar produtos orgânicos de produtores locais estariam reconhecendo a importância de fortalecer as cadeias produtivas regionais etc e tal. Enfim, todas as ações do dia-a-dia estariam sendo consideradas como atitudes políticas, ou melhor, adquirindo um sentido humano, local e universal.

Ou seja: a vida de qualquer pessoa está cheia de provações individuais e coletivas, principalmente para aquelas que assumem um cargo público ou fazem parte de um centro estudantil, desde um policial da esquina até um chef de cozinha, de um dirigente partidário e muito mais de um governador. Pois é numa dessas situações que a concepção de poder se manifesta e os indivíduos são testados. Nunca apenas pelo discurso ou nas postagens de ocasião. Ou melhor, se quisermos saber o verdadeiro grau de liberdade que um homem ou uma mulher defende, basta arrancar-lhes a sua concepção de mulher, ou como cada um(a) se refere ou se relaciona com as mulheres negras e/ou indígenas. E mais: perguntar-lhes se têm algum preconceito homoafetivo ou de religião. 

As concepções de poder estão por toda parte, mas muitas vezes algumas faces e representações ficam ocultas, e se manifestam apenas quando alguém assume um cargo ou uma função coletiva. Nas redes sociais qualquer um(a) se sente o rei ou a rainha da cocada, mas é na vida real que a porca torce o rabo. Por isso, é bom exercitar a capacidade que cada um(a) tem de solidariedade e de fraternidade, sem perder o senso de justiça, pois o mundo que queremos construir é de homens e mulheres livres e fraternos, e não de pessoas agressivas e odiosas. Não adianta ficar adjetivando os demais ou tratando o Mujica como uma estrela de rock, pois o nosso desafio é construir uma constelação de organizações autônomas com a máxima convergência possível dos olhares e dos saberes que aprenderam a ser solidários e propositivos.

Compartilhar o poder – micro e macro - não é para qualquer um(a). Ainda mais numa sociedade que segue gerando homens e mulheres individualistas e egoístas, em que muitas pessoas já perderam a fé na humanidade e recorrem ao divino, às verdades absolutas ou ao isolamento, pois perderam a crença nos seres humanos, que são elas mesmas. Às vezes é preciso passar por situações difíceis e adversas para se colocar no lugar de outra pessoa, e para entender a subjetividade e objetividade de cada cultura e moral existente. Não queremos apenas uma mudança do sistema, mas da cultura que dá sustentação a este sistema falido.

O nosso futuro será sempre construído por meio de passos objetivos, firmes e consistentes, pois esses sim serão lembrados daqui a dez, vinte e cinquenta anos, e não por aqueles que gritam mais alto ou falam somente frases genéricas. São as atitudes individuais e, principalmente as coletivas, que permitirão gerar novas reflexões bem mais complexas e que irão nos proporcionar outras dimensões da consciência. Por exemplo: é preciso compreender que se o conservadorismo cultural e político vencer o movimento contra o golpe no Brasil, en breve Mujica y nuestros queridos hermanos uruguayos serán agredidos como estamos siendo nosotros, los brasileños. Portanto, temos que superar o regionalismo e o nacionalismo até criar uma consciência planetária que seja capaz de transformar radicalmente a nossa sociedade.

                                                      Porto Alegre, 18 de maio de 2016.

Ricardo Almeida